Final Vendetta, CRT, beat'em ups e a nostalgia por uma época em que jogar videogame era também uma experiência física
Existe uma coisa curiosa acontecendo nos videogames. Ao mesmo tempo em que a indústria avança em direção a gráficos cada vez mais realistas, mundos gigantescos e experiências que parecem querer reproduzir tudo o que existe no mundo real, uma parte dos jogadores está olhando para trás. E não é apenas para jogar os clássicos.
Estamos vendo jogos novos que fazem questão de parecer antigos. Pixel art, sprites enormes, trilhas sonoras que lembram os arcades, fases curtas, personagens exagerados, chefes de visual cartunesco e aquela velha fórmula de andar para a direita enquanto se desce a porrada em todo mundo que aparece pela frente.
Um bom exemplo disso é Final Vendetta.
Eu descobri o jogo há algum tempo, vi algumas pessoas comentando sobre ele no YouTube e achei interessante. Coloquei na minha lista de desejos da Steam e deixei por lá durante um bom tempo. Até que chegou aquele e-mail avisando que o jogo estava em promoção. O preço estava irresistível. Consegui comprar por pouco mais de seis reais. E foi assim que mais um jogo entrou para a minha coleção.

E cá estou eu com um jogo novo com cara de fliperama antigo (como eu gosto... rs)
A primeira coisa que chama atenção em Final Vendetta é justamente aquilo que ele não tenta esconder. Ele quer parecer um beat'em up dos anos 1990. Inclusive, pelo que eu consegui apurar nas leituras que fiz e vídeos que assisti, este jogo foi pensado como uma homenagem ao gênero. Tanto que dá pra ver detalhes ao longo dos cenários e fases, muita coisa que lembra os clássicos dos jogos de briga de rua.
A história é simples: uma personagem tem a irmã sequestrada por uma gangue e parte para o resgate acompanhada por dois amigos. Não existe aqui uma grande trama cheia de reviravoltas. A história está ali para cumprir uma função que os jogos daquele período conheciam muito bem: dar uma desculpa para começar a pancadaria. E tudo bem, porque é isso que a gente quer fazer quando coloca ficha num jogo desses. Nos beat'em ups clássicos, a história muitas vezes era quase um convite para apertar o botão Start. O que importava mesmo era a caminhada pelas ruas, os inimigos aparecendo em grupos, as armas espalhadas pelo cenário, os chefes e, principalmente, a sensação de controlar um personagem que parecia uma máquina de distribuir socos.
Final Vendetta entende isso muito bem e durante a partida, eu imediatamente comecei a perceber referências a dois dos grandes nomes do gênero: Final Fight e Streets of Rage. E não são referências discretas. O próprio personagem, Duke, com quem zerei na gameplay do canal, me lembrou bastante Adam, de Streets of Rage. Não apenas pelo visual, mas também pela maneira como o personagem equilibra força e agilidade. É aquele tipo de referência que provavelmente provoca um pequeno sorriso em quem passou algumas horas diante de um Mega Drive ou Super Nintendo, no caso de Final Fight.
A memória afetiva está nos detalhes
Talvez seja justamente aí que esteja a força desses jogos. Final Vendetta não precisa ser um jogo antigo para provocar uma lembrança antiga. Durante a partida, encontrei cenários urbanos, uma estação de metrô, objetos espalhados pelas fases, inimigos caricatos, chefes exagerados e situações que imediatamente puxam pela memória outros jogos.
Em determinado momento, por exemplo, o cenário me fez lembrar de uma das fases clássicas de Final Fight. Em outro, uma situação envolvendo um carro trouxe aquela lembrança tão característica dos jogos de luta da época. É uma espécie de memória feita de pequenos fragmentos. Você não está necessariamente lembrando de uma fase específica. Está lembrando de uma sensação. A sensação de estar diante de uma tela, com um controle nas mãos, tentando descobrir o que vinha depois da próxima esquina.
E então eu liguei o CRT
Uma das coisas que gostei muito em Final Vendetta e que eu já tinha experimentado no novo jogo das Tartarugas Ninja foi um efeito CRT, que deixa a imagem da tela parecendo aqueles tubos de imagem dos gabinetes arcade do início dos anos 90. Eu gosto desse tipo de recurso. Não porque uma televisão de tubo fosse tecnicamente superior a uma tela moderna. Não era. Mas porque o CRT fazia parte da experiência.
Quando você liga o efeito, a imagem ganha aquele aspecto de televisão antiga, com linhas e características que imediatamente remetem aos aparelhos que usamos durante boa parte da história dos videogames domésticos.
E aí acontece uma coisa curiosa. O jogo já tem uma estética retrô. Com o filtro CRT, ele parece ainda mais interessado em recuperar uma determinada época. É quase como se o jogo dissesse: “Vamos brincar de imaginar que você está novamente diante daquela televisão.” E funciona. Pelo menos comigo.
O que Final Vendetta acertou sobre os beat'em ups
O mais interessante é que Final Vendetta não parece interessado apenas em copiar a aparência dos jogos antigos. A jogabilidade também procura recuperar aquela simplicidade. Nesse jogo você anda, bate, combina golpes, enfrenta grupos de inimigos, pega itens, chega ao chefe e continua avançando. É uma estrutura extremamente direta e talvez seja justamente por isso que ela continue funcionando.
Nos videogames atuais, muitas vezes precisamos aprender dezenas de sistemas antes de realmente começar a jogar. Final Vendetta não exige esse ritual. Você pega o controle e joga. Pra quem é das antigas como eu, é como chegar no fliperama, colocar a ficha e já sair distribuindo... rs. O jogo também não me pareceu particularmente difícil na dificuldade normal. Em alguns momentos existem inimigos mais chatos, principalmente quando conseguem cercar o personagem, mas a experiência geral é bastante acessível. E ainda existe a possibilidade de jogar em modo cooperativo para duas pessoas. Mais uma vez, uma pequena lembrança dos velhos tempos.
A trilha sonora também faz parte da viagem
Outro ponto que me chamou bastante atenção foi a trilha sonora. E aqui eu me lembrei demais do clássico Streets of Rage. Eu tenho a versão mais recente e pra mim é uma das melhores trilhas sonoras de todos os tempos. Final Vendetta acertou muito nessa parte. Ela combina muito bem com a proposta do jogo e tem aquela energia eletrônica que parece ter escapado diretamente de um arcade dos anos 90.
E isso é importante porque quando falamos de nostalgia nos videogames, normalmente pensamos primeiro na imagem, mas a memória também é sonora. Como eu disse, quem jogou muito Streets of Rage, por exemplo, sabe disso. Algumas músicas são praticamente máquinas do tempo. Bastam alguns segundos de determinado tipo de batida e você já está novamente diante de uma televisão antiga, tentando passar daquela fase que parecia impossível.
Os criadores de Final Vendetta entendem que a experiência retrô precisa ser construída também pelos ouvidos. Mais um ponto certeiro pro jogo.
Quando o passado vira matéria-prima para criar algo novo
É aqui que Final Vendetta deixa de ser apenas um jogo nostálgico e começa a fazer parte de uma tendência maior. Hoje existem muitos desenvolvedores criando jogos novos a partir de linguagens que já foram consideradas ultrapassadas. Pixel art não desapareceu, beat'em ups não desapareceram, jogos de luta em 2D não desapareceram e plataformas em duas dimensões também não.
Na verdade, muitos deles voltaram a ganhar espaço justamente porque os desenvolvedores perceberam que não precisam abandonar essas linguagens para criar experiências novas e isso é diferente de simplesmente relançar um jogo antigo.
Final Vendetta não é um Final Fight novo, não é um Streets of Rage novo e também não é uma sequência do clássico Vendetta ou Crime Fighters do início dos anos 90. É um jogo contemporâneo que olha para esses títulos, entende o que fazia aquela fórmula funcionar e utiliza esses elementos para criar outra coisa. Essa diferença é importante.
Nostalgia não precisa significar repetição porque ela pode ser uma matéria-prima.

Eu já vi esse filme antes. Só que em outra televisão
Enquanto jogava Final Vendetta, comecei a lembrar de outros beat'em ups que fizeram parte da minha experiência com videogames e Final Fight foi um deles. Eu joguei pela primeira vez nos fliperamas da minha cidade. Depois veio a versão para Super Nintendo, que fazia algumas concessões em relação ao arcade, como a quantidade de jogadores e personagens disponíveis.
E também existe Double Dragon. Na verdade, Double Dragon foi provavelmente o primeiro beat'em up que vi na vida, mas eu não cheguei a jogá-lo no fliperama quando ele fazia sucesso. Eu ficava só observando os amigos jogarem e só fui jogar depois, quando meu amigo Wellington comprou um cartucho para o Master System 2.
Essa lembrança é curiosa porque o Master System é justamente um daqueles consoles que fazem parte da minha memória afetiva sem ter feito parte da minha coleção. Me lembro que eu queria ter comprado um Master System na época, mas quando finalmente fui atrás do console, ele já estava saindo de linha. Acabei voltando para casa com um Mega Drive, que continua comigo até hoje.
É por isso que acho interessante quando um jogo moderno consegue despertar esse tipo de lembrança. Não é apenas sobre gráficos e sim sobre tudo aquilo que existia ao redor deles.

Talvez seja por isso que ainda gostamos de colecionar
Essa discussão também me levou a pensar em outra transformação que está acontecendo nos videogames: o desaparecimento gradual da mídia física. Eu não tenho nada contra jogos digitais. Pelo contrário. Compro jogos digitais, tenho jogos na Steam, na Epic e até na Microsoft XBox e acho extremamente conveniente ter uma biblioteca inteira disponível no computador, mas existe uma diferença quando falamos de consoles.
Para quem gosta de colecionar, a mídia física representa alguma coisa que vai além do jogo. É um objeto, é a caixa, é o disco ou cartucho, é a possibilidade de olhar para a prateleira e lembrar quando aquele jogo entrou na coleção.
No meu caso, o PlayStation 3 é justamente um dos consoles em que mais tenho mídia física. Tenho pouco mais de vinte jogos e, pelo menos entre os títulos que eu realmente queria, acredito que minha coleção esteja praticamente completa.
Alguns jogos, entretanto, acabaram ficando apenas na versão digital porque as cópias físicas ficaram raras e caras demais. E aí existe uma contradição interessante. Ao mesmo tempo em que os videogames modernos caminham para uma experiência cada vez mais digital, estamos vendo crescer o interesse por consoles antigos, jogos retrô, cartuchos, CDs, CRTs e novas produções que imitam a estética dessas máquinas. Talvez não seja coincidência. Eu não acho que seja.
O videogame não precisa parecer moderno para ser novo
Acho que essa é a parte mais interessante de toda essa história. Quando joguei Final Vendetta, eu não tive a sensação de estar jogando um jogo velho e sim a sensação de estar jogando um jogo novo que entende muito bem por que os jogos antigos eram divertidos e existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Final Vendetta pega a linguagem dos beat'em ups dos anos 90, mistura referências de Final Fight, Streets of Rage, Crime Fighters e outros clássicos, coloca personagens novos, novos cenários, novas músicas e uma apresentação contemporânea. Depois entrega tudo isso ao jogador sem precisar transformar a experiência em uma aula de história dos videogames. Você simplesmente pega o controle e joga.
Ao meu ver, talvez essa seja uma das razões pelas quais os videogames estejam novamente parecendo videogames. Não é porque a tecnologia tenha parado de evoluir, mas porque, depois de tantas décadas, continuamos descobrindo que algumas ideias eram boas desde o começo. Um personagem, uma rua, uma porção de inimigos, um controle na mão e a pergunta inevitável: “Será que eu consigo chegar até o final?” (Meu Deus como eu gosto disso... rs). No meu caso, pelo menos desta vez, consegui (Final Vendetta zerado na gemeplay do canal). Da próxima vez pretendo jogar em uma dificuldade maior porque nostalgia é boa, mas apanhar de chefe de fase continua sendo tradição.

Bom, é isso. O texto ficou um pouquinho longo, mas é assim mesmo. Às vezes a gente tem mais o que falar e a coisa vai fluindo. Obrigado por dedicar um tempinho na leitura e por visitar o blog HQ Pixel. Volte mais vezes. Agora quero deixar pra você, logo aí abaixo o vídeo da Crônica do jogo Final Vendetta onde comento muita coisa do que eu trouxe aqui. Se tiver mais um tempinho, confere aí que vale a pena. Agora, se me dá licença, vou jogar um pouquinho mais em um de meus consoles de verdade com aquele bom e velho cartucho que comprei nos anos 90. Deixe seus comentários aí abaixo e a gente se vê nos próximos posts. Valeu!
Marcos
HQ Pixel

